Em 1703, contando com a excessiva anglofilia do rei Pedro II e da sua corte, com a cumplicidade interesseira do negociador entreguista Dom Manuel Teles da Silva – o conhecido Marquês de Alegrete, um grande produtor de vinhos – e, ainda, com a simpatia oportunista dos produtores rurais portugueses, o embaixador britânico em Lisboa John Methuen negociou o tratado comercial que sepultou as eventuais chances de industrialização de Portugal.
Um tratado muito simples. Pelos termos do Tratado de Methuen, fazendo a alegria do agronegócio lusitano, o Reino Unido dava a preferência aos vinhos portugueses e, em contrapartida, cavando a sua própria cova, Portugal dava preferência aos tecidos produzidos no Reino Unido.
A consequência foi desastrosa para Portugal.
De fato, ao tempo que os produtores rurais portugueses faziam grandes negócios, Portugal impulsionava a revolução industrial britânica e, justamente por isso, enterrava as suas próprias chances de industrialização.
Agora, passados 323 anos, depois de negociações entabuladas ao longo de 25 anos, o Mercosul e a União Europeia firmaram um tratado Livre comércio que, inserindo-se entre os maiores acordos econômicos do mundo, estabelece uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, envolvendo 700 milhões de consumidores em um mercado que movimenta US$ 22 trilhões e, naturalmente, redesenha o panorama do comércio internacional.
Pelo acordo, os países que integram o Mercosul – Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai e, ainda os países-associados Bolívia, Chile, Colômbia, Peru e Equador (a Venezuela teve o processo de adesão suspenso) – têm acesso aos mercados dos 27 países-membros da União Europeia e vice-versa.
O TLC UE-Mercosul recoloca alguns pontos presentes no Tratado de Methuen, especialmente porque confronta um parceiro de agronegócio poderoso com um parceiro caracterizado pela indústria avançada.
Com efeito, fazendo contraponto às vantagens desfrutadas pelo agronegócio sul-americano (que é muito melhor preparado do que os fazendeiros europeus, daí a resistência dos franceses), a indústria sul-americana enfrentará muitas dificuldades na livre concorrência que enfrentará com a indústria europeia.
Nesta perspectiva, para não cair no abismo que naufragou a economia portuguesa no século XVIII, os industriais sul-americanos precisam estar consciente da situação e tomar o enfrentamento com a indústria europeia como um desafio a ser enfrentado e ‘vencido’.
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No caso brasileiro a Nova Indústria Brasil (NIB) – a política industrial lançada em janeiro de 2024 – precisa estar atenta, pois, se não forem criados mecanismos apropriados, incluindo ajustes nos mecanismos estatais de aquisições de bens e serviços, não conseguirá cumprir o objetivo de ‘impulsionar o desenvolvimento da indústria nacional até 2033’. Vale dizer que o desafio colocado não é apenas à indústria brasileira e, sim a todo o país, pois, na prática, o naufrágio de um setor da economia significa a debacle de toda a economia do País.
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