6ª feira, 09 de outubro de 2026
Aberto com a advertência de se tratar de obra de ficção – e, neste sentido, qualquer semelhança com qualquer pessoa viva ou morta seria fruto de mera coincidência -, a peça relatava o primeiro dia do mandato presidencial do extremista liberal, desonesto e entreguista Flávio Bolsonaro, primogênito do golpista recolhido à prisão Jair Bolsonaro, que, no curso de uma campanha fincada em Fakenews, azeitada pelo farto suporte (inclusive financeiro) da Casa Branca e pelo maciço apoio da mídia corporativa, derrotara o Estadista reconhecido mundialmente Lula.
Com planos de usar ferro e fogo para se eternizar no Palácio do Planalto, Flávio Bolsonaro acordara de mal-humor, pois, naquilo que considerou uma ‘afronta inaceitável’, o Supremo Tribunal Federal (STF) se negara a libertar da prisão e autorizar o pai recolhido à penitenciária para participar da solenidade de posse, acompanhando-o no rolls royce presidencial e subindo a rampa do palácio. “Este insulto não passará em branco, seu filho da puta” esbravejara ele ao presidente do STF, no telefonema no qual retirara o convite para sua participação na festa de posse.
Exalando ira por todos os poros, o presidente Flávio, ou Bolsonaro II como preferia ser chamado, ruminava a proposta de emenda constitucional (PEC) para ampliar o número de cadeiras do STF para 21, permitindo-lhe a designação de 10 novos ministros (além daqueles já esperados em função da vaga vazia, das aposentadorias e das esperadas remoções por impeachment), dando-lhe confortável maioria na Corte suprema.
A trabalheira começou logo cedo com a chegada dos ministros Guilherme Derrite, Frederick Wassef, Adolfo Sachsida e Celso Vilardi, que lhe trouxeram a papelada para assinar – diversos projetos de emenda constitucional, a extinção de ministérios (incluindo Educação, da Ciência, Tecnologia e Inovação, Minas e Energia e Cultura), proposta de Anistia aos envolvidos na tentativa de golpe de 2022/2023, reforma administrativa (com extinção da chamada ‘estabilidade do funcionalismo’), reforma da previdência (com ampliação das idades de aposentadoria e da contribuição previdenciária), reforma trabalhista (com retorno da jornada 6×1 e a admissão dos contratos e remuneração por hora trabalhada), projetos de lei e medidas provisórias (com efeito imediato) que, além de implementar o ideário do Estado mínimo, honravam compromissos assumidos na campanha e ao longo de toda a vida (especialmente com os Estados Unidos). Resguardado pelo tesouraço de R$ 300 bilhões ‘para atingir o equilíbrio orçamentário e organizar as contas públicas’, o primeiro dia de mandato de Bolsonaro II seria marcado pela imediata suspensão de todas as obras incluídas no chamado Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), pelo corte de até 95% das verbas destinadas aos programas sociais, a pronta extinção de alguns deles (como o pé-de-meia) e pela aprovação de um calendário de completa desativação de outros (incluindo o bolsa-família e o farmácia-popular).
No meio da papelada estava a privatização do SUS, da Caixa Econômica Federal, do Banco do Brasil, da Petrobras, a liberação do funcionamento das BETs e dos cassinos no território nacional, a parceria com os Estados Unidos para exploração das terras e minerais raros com exclusividade; a transferência da Base de Alcântara para a NASA, a proibição do ensino do mandarim e do russo no Brasil, a saída do País dos BRICS, a denúncia do Tratado de Livre Comércio com a União Europeia e de todo e qualquer acordo firmado com países em disputa comercial, tecnológica ou militar com os Estados Unidos, o rompimento diplomático do Brasil com o Irã, com Cuba, com a Palestina, a substituição do corpo diplomático nos Estados Unidos, Rússia, China, Índia, África do Sul.
O presidente Bolsonaro II passou horas e horas assinando papéis.
Ao final do dia, depois de orientar ao ministro Guilherme Derrite usar ‘o máximo rigor’ para dissolver toda e qualquer manifestação popular contra suas medidas, telefonou para o pai para prestar contas e, exausto de tanto trabalho, dormiu e paz com sua consciência.
Amanhã seria outro dia e teria muita coisa por fazer.
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