Em 1982, já no dia seguinte às eleições realizadas em 15 de novembro, como forma de sustar a ascensão de Leonel Brizola e dificultar ainda mais as suas chances de chegar à presidência da República, o chamado ‘sistema’ (uma abstração extremamente concreta, que dava e dá corpo aos interesses das elites conservadoras e reacionárias) se aproveitou das falhas inerentes à contagem manual dos votos e tentou tomar ‘na mão grande’ a sua eleição para a governadoria do Estado do Rio de Janeiro.
Com efeito, contrariando todas as pesquisas de boca-de-urna, com base na sua ‘apuração paralela’, a TV Globo começou a insinuar que os candidatos Moreira Franco e Miro Teixeira tinham desbancado Leonel Brizola.
O jogo das Organizações Globo foi pesado e, além da tal ‘apuração paralela’, contou com a cumplicidade da Proconsult & Racimec Associados, uma empresa privada pertencente a oficiais da reserva da Marinha contratada pelo TRE-RJ para processar a apuração dos votos.
Depois que a armação foi denunciada na tribuna do Senado por Saturnino Braga, a Globo começou a recuar da tramoia, culpando um tal ‘fator delta’ (um algoritmo que manipulava o número de votos brancos e nulos), até que, sem alternativa, em meados de dezembro, a Justiça Eleitoral do Rio de Janeiro proclamou a vitória de Leonel Brizola com 1.709.264 votos (34,2%).
Na época, a Globo se defendeu e algumas vozes atribuíram a jogada para falsificar o resultado da eleição ao Serviço Nacional de Informações (SNI).
Pois bem.
Agora, confirmando ensinamentos de Karl Marx, para quem “A história se repete, a primeira vez como tragédia, e a segunda como farsa”, ao que parece, na Colômbia as elites voltam a manipular o processo de apuração dos votos para impedir a presença de pensamentos humanistas e progressistas na presidência do país.
Com efeito, ainda no domingo, 31 de maio de 2026, poucas horas após o término das eleições, agindo como fizera o senador Saturnino Braga no Rio de Janeiro há 44 anos, o presidente Gustavo Petro se apressou em denunciar a manipulação da apuração dos votos, rejeitando os resultados preliminares apressadamente divulgados pela Registraduría Nacional, indicando uma contagem ‘esquisita’, segundo a qual 43,72% dos votos teriam sido dados ao candidato da ultradireita Abelardo de la Espriella e apenas 40,92% dos votos [teriam sido dados] ao candidato progressista Iván Cepeda.
As coincidências dos casos da Colômbia e do Rio de Janeiro são muitas.
Assim como no Rio de Janeiro, na Colômbia, a contagem dos votos é processada por uma empresa privada. No Rio, a Proconsult & Racimec Associados pertenceu a oficiais da reserva da Marinha; Na Colômbia, a empresa Thomas Greg & Sons pertence aos irmãos Bautista, que têm fortes ligações comerciais com o candidato ‘vencedor’ Abelardo de la Espriella e se recusa a se submeter a auditorias.
No Rio de Janeiro, o ‘fator Delta’ manipulava os votos bancos e nulos; na Colômbia, o algoritmo do software usado pela Thomas Greg & Sons foi alterado para adicionar 800 mil títulos.
Em meio a tudo isto, crescem os rumores da intervenção dos Estados Unidos na eleição da Colômbia. Impressionada com a possibilidade de fraude, a presidente do México, Claudia Sheinbaum, fez um apelo para as autoridades eleitorais colombianas investigarem as graves denúncias feitas pelo presidente Gustavo Petro e que a vontade popular expressa nas urnas seja respeitada.
Como esperado, a Casa Branca só vai reclamar quando, nos termos das preferências já apontadas nas pesquisas, o candidato da extrema direita for derrotado por Iván Cepeda.
Independentemente, das fraudes ocorridas no primeiro turno, o humanista e progressista Iván Cepeda e o conservador e reacionário Abelardo de la Espriella, candidato de extrema-direita, voltarão a se enfrentar em 21 de junho.
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