Muitas coisas concorrem contra a descentralização: a covardia, o comodismo, a neofobia, a economia de escala. São muitas as causas que levam os decisores a repetir decisões anteriores, dificultando a descentralização dos processos e, em contraponto, contribuir para a centralização (e, claro, [contribuir] para o acirramento dos problemas dela decorrentes [decorrentes da centralização].
Lembro que, por ocasião das discussões em torno da construção de uma nova refinaria de petróleo no País (que, enfim, foi construída na área de Suape e, hoje, chama-se ‘Abreu e Lima’), cheguei a ser ridicularizado quando, usando os mesmos argumentos que justificavam sua construção no Nordeste (que exigia investimentos mais vultosos e a região não era o principal centro consumidor dos derivados de petróleo) para defender a construção em Salgueiro, a ‘Encruzilhada do Nordeste’, uma cidade localizada no sertão pernambucano, a 500km do Recife.
Lembro a dificuldade que o Clube de Engenharia de Pernambuco enfrentou para realizar ‘Rodadas de Desenvolvimento’ em Araripina – uma cidade na fronteira com o Piauí, repleta de problemas por superar e desprovida de uma rede confortável de hotéis (pela vontade da maioria, as Rodadas seriam realizadas no Recife ou em cidade ‘mais desenvolvida’).
Imagino a coragem que a decisão de construir Brasília exigiu do presidente Juscelino Kubitscheck.
Neste momento, guardadas as devidas proporções, o Brasil vive um processo assemelhado com a realização da COP30 em Belém do Pará – um mega encontro mundial, que vai atrair gente e olhares de toda parte para a Amazônia, exigindo a oferta de serviços (muito além das possibilidades da região e, claro, reapresentando a injeção de muitos milhões na economia local).
De fato, como Belém não oferece os serviços que poderiam ser encontrados em cidades ‘mais avançadas’), mesmo ao preço de não conhecer a Amazônia ‘in loco’, muitos prefeririam que a COP30 fosse realizada em outra cidade. É neste sentido que deve ser interpretada a carta enviada à organização da COP30 e à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) por representantes de 25 países, na qual, alegando dificuldades da hotelaria, de logística, de transporte e de segurança, alertam para os riscos de manter integralmente a conferência em Belém. Na realidade, pela vontade deste pessoal, a COP30 seria realizada no Rio de Janeiro, São Paulo, Paris ou Londres.
De qualquer forma, do mesmo modo que a decisão de transferir a capital da república para a região central do País exigiu muita coragem de JK, a realização da COP30 no Norte exigiu muita coragem de Lula.
Se homens dos quais se espera coragem e ousadia caírem na mesmice, todos o encontros importantes serão realizados no eixo Rio-São Paulo, submetendo o País a dificuldades adicionais para promover a descentralização que todos dizem querer.
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