O volume das carências físicas – uma grandeza revelada por aquilo que falta para saciar as carências materiais da sociedade – indica a insuficiência da aplicação da Engenharia e, em certa medida, [indica] a falta de engenheiros – profissionais preparados para equacionar problemas, planejar soluções, projetar e construir obras, artefatos, equipamentos e veículos.
Não é necessária muita ciência para chegar a esta conclusão.
Um simples olhar sobre as comunidades e favelas e/ou sobre a banda mais pobre da sociedade mostra o desabrigo, a fome, o efeito das intempéries, o desconforto e tudo o mais, sendo suficiente para indicar a insuficiência da aplicação de Engenharia e, claro, a insuficiência do número de profissionais que a realizam [realizam a Engenharia]. Afinal de contas, sendo o elemento que constrói o mundo artificial e tudo que nele há, a aplicação da Engenharia é o caminho por onde passa obrigatoriamente a solução da maioria dos problemas que acometem a sociedade – produção de alimentos, [produção] de veículos, [produção] de ferramentas, [produção] de utensílios, [produção] de equipamentos, [produção] de moradias, [produção] de sistemas de logística, enfim a produção e a melhoria dos bens necessários à superação das carências físicas. Neste embalo, como consequência natural da importância da Engenharia, a superação das carências físicas que atormentam a sociedade passa pelo engajamento dos profissionais que a aplicam [aplicam a Engenharia], e que, nesta condição, passam também a ser essenciais para o processo de desenvolvimento da sociedade.
Aliás, por razões obvias, a intensificação dos processos de superação das necessidades da sociedade (e, portanto, do uso da Engenharia) requer a ampliação do número de profissionais das Engenharias. Observe, por exemplo, que, mesmo considerando o efeito decorrente da economia de escala e o suporte oferecido pelo avanço tecnológico, o número de profissionais necessários para a construção de casas deverá ser tanto maior quanto maior for o número delas [das casas]; o número de profissionais necessários para a construção e pavimentação de estradas deverá ser tanto maior quanto maior for a sua extensão e, assim por diante.
Nesta perspectiva, vale a pena considerar o impacto esperado no mercado de trabalho pela intensificação do processo de superação das necessidades da sociedade. Normalmente, quaisquer que sejam as áreas focadas, os boons de crescimento revelam a insuficiência do mercado de trabalho, deixando claro a necessidade de investimentos na formação qualitativa e quantitativa de engenheiros. Afinal de contas, sem o engajamento de engenheiros, a condução da Engenharia fica comprometida.
Naturalmente, o raciocínio feito para os engenheiros se aplica para todos os profissionais das Engenharias – um universo que envolve arquitetos, urbanistas, agrônomos, geólogos, agrimensores, meteorologistas, empresários das áreas, professores dos cursos que preparam os profissionais, técnicos, operadores, pedreiros, ferreiros, carpinteiros, eletricistas, mecânicos, pintores, etc.
Por outro lado, assim como a abertura das frentes necessárias para a superação das carências, a mobilização do ‘exército’ da Engenharia necessário para toca-las (tocar as frentes) também requer a aplicação de investimentos em montante quase sempre superior àqueles disponíveis pela iniciativa privada, levando à conclusão da imprescindibilidade da presença do Estado em processos desta natureza. Embora esteja afeito a considerações de outra ordem, cabe o registro de que, por todas as razões (inclusive por questões de motivação), deve caber ao Estado a responsabilidade pela superação definitiva das carências e pela indispensável mobilização da Engenharia e do seu ‘exército’.
De qualquer forma, é essencial que a sociedade tenha em mente que, entre as facetas reveladas pela percepção de um problema cuja solução depende da oferta de bens materiais, esta a insuficiência do número de profissionais da Engenharia.
A Humanidade precisa de mais Engenharia e de mais engenheiros para superar seus problemas materiais.
2026 02 26 A melhoria da qualidade de vida requer a mobilização de mais engenheiros
(*) Alexandre Santos é engenheiro civil, ex-presidente do Clube de Engenharia de Pernambuco, membro da Academia Pernambucana de Engenharia e coordenador-geral do programa ‘Engenharia & Desenvolvimento’
