6ª feira, 07 de agosto de 2026
Veja como são as coisas.
Em 22 de abril de 2020, por ocasião da célebre reunião ministerial gravada pelo delator Mauro Cid, na condição de Advogado-Geral da União (AGU), André Mendonça testemunhou a ferocidade como Jair Bolsonaro defendeu o filho Flávio, que na época estava na mira da Polícia Federal pelo envolvimento no caso das rachadinhas (“não vou deixar ninguém fuder meus filhos”, esbravejou o então presidente).
Pois bem.
Dias mais tarde, reforçando ainda mais o sentimento de gratidão já devido ao presidente Bolsonaro pela sua indicação para a AGU, André Mendonça foi designado para o cargo de ministro da justiça (em substituição a Sérgio Moro) e, mais tarde, em 13 de julho de 2021, em função da sua condição de ‘terrivelmente evangélico’ lembrada insistentemente por Michelle Bolsonaro, foi por ele [por Jair Bolsonaro] indicado para o Supremo Tribunal Federal (STF).
Pronto!
Com uma magnífica carreira construída à sombra de Jair Bolsonaro, por justas razões, André Mendonça passou a se considerar um ‘devedor’ (e seria um ingrato se não pensasse assim).
Aliás, forjado em bolha na qual as relações republicanas são pouco importantes e perdem de longe para as relações pessoais, agora, na condição de ministro do STF, André Mendonça está disposto a usar a gratidão como prova de que Jair Bolsonaro acertou quando investiu na sua amizade.
Na realidade, como o seu comportamento absolutamente faccioso vem provando, André Mendonça nunca poderá ser acusado do pecado da ingratidão.
Pelo contrário, ao tempo que usou seus poderes para blindar Flávio Bolsonaro contra qualquer iniciativa capaz de prejudicá-lo, André Mendonça tratou de requentar casos antigos para dar munição à campanha de desgaste contra a imagem de Lula, inclusive revivendo acusações já superadas contra o seu filho Fábio Luiz (filho de Lula).
A sanha bolsonarista de André Mendonça é tão grande que passou a atropelar a liberdade de trabalho garantida pelo governo Lula à Polícia Federal, inclusive intervindo na alocação de agentes, [intervindo] condução e conclusão de inquéritos e [intervindo] na direção das linhas de investigação.
O mal estar gerado pelo estilo Bolsonaro assumido por André Mendonça é tão grande que, ontem – horas depois de os 27 superintendentes regionais da PF divulgarem uma nota conjunta em defesa do diretor-geral Andrei Rodrigues e da independência técnica e administrativa da instituição -, André Mendonça procurou o ministro da Justiça Wellington César Lima e Silva para fazer valer a sua autoridade de ministro do STF sobre a PF.
Ninguém discute a importância moral da gratidão. Isto, no entanto, não autoriza o agradecido a obstacular a atividade policial, a desrespeitar a lei ou a proteger bandidos.
Talvez seja hora da prevaricação de André Mendonça ser denunciada ao STJ e ao STF.
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