Sábado, 08 de agosto de 2026
Considerando a definição ‘governo do povo, pelo povo e para o povo’ cunhada por Abraham Lincoln no famoso Discurso de Gettysburg, em 19 de novembro de 1863, seria possível a existência de um governo democrático sem a ‘opinião do eleitor’. Afinal de contas, Democracia se refere ao como o governo é exercitado.
Acontece que, além da forma com o governo exerce o governo, há a forma como ele [o governo] é escolhido, emergindo, então, a questão das eleições democráticas’. Assim, ganha destaque o sistema através do qual o governo é eleito – um sistema que inclui a apresentação dos candidaturas, a divulgação dos candidatos e das suas propostas, a eleição e a apuração dos votos. Vale frisar que, em função do longo processo de desvirtuação e corrupção imposta ao conceito sobretudo pelas elites manipuladoras, para muitos, Democracia se resume às eleições (ao método de escolha do governo e não à forma como o governo é exercido, portanto).
De qualquer forma, considerando que um sistema será tanto melhor quanto melhores forem as partes que o compõem, para que o processo de escolha dos candidatos (e das suas propostas) não apresente problemas que comprometam a ‘índole democrática’ dele esperado é fundamental o bom funcionamento das ‘suas partes’, incluindo, claro, o eleitor – uma peça-chave do processo, que deve estar bem informado sobre o objeto e o objetivo da escolha, sobre as propostas em escrutínio e, sobretudo, consciente da sua responsabilidade sobre o resultado das eleições.
Afinal de contas, a qualidade do governo escolhido é fruto do processo de escolha – uma escolha mal feita pode levar o governo ao caos. Infelizmente, ao desinteresse de candidatos (que, por razões diversas, não querem ser escrutinados por eleitores conscientes) e soma o despreparo de eleitores, produzido uma mistura capaz de produzir mandatos extremamente desastrosos.
Observe, por exemplo, o pleito para a escolha do prefeito de São Paulo (a maior cidade do Brasil e uma das maiores do planeta), no qual, mesmo sem apresentar qualquer proposta ou manter comportamento minimamente decente durante a campanha, o aventureiro completamente desqualificado Pablo Marçal alcançou 28,14% dos votos, um resultado muito próximo do candidato mais votado, que recebeu 29,48% dos votos. Será que os 1.719.274 paulistanos que nele votaram estão preparados para exercer a condição de eleitor? Uma eleição eventualmente decidida por este tipo de eleitor pode ser considerada democrática?
Para ser considerada ‘democrática’ a eleição precisa ser marcada não só por campanha eleitoral isenta de ilegalidades e imoralidades (como técnicas de manipulação do inconsciente, propaganda enganosa, Fakenews, etc.) e por um processo de apuração confiável, mas, também, por eleitores conscientes, bem informados e responsáveis.
Na campanha presidencial em curso – graças a desonestidade, deformação e má intenção de alguns candidatos (com destaque para Flávio Bolsonaro, Romeu Zema e Renan Santos) há o concurso de muitos elementos comprometedores da sua lisura democrática.
O candidato Renan Santos, por exemplo, demonstrando completo desconhecimento da Constituição do País, vem defendendo a aplicação da pena de morte (cuja proibição integra as poucas cláusulas pétreas do texto constitucional) – observe que o despreparado não propõe a convocação de uma assembleia nacional constituinte e sim a violação de uma cláusula pétrea da constituição brasileira.
Será que o eleitor disposto a votar neste tipo de proposta está politicamente preparado para participar de uma eleição democrática?
Será que um pleito afetado por este tipo de proposta pode ser considerado ‘democrático’?
A eleição não é elemento essencial para o funcionamento da Democracia, muito menos se os mandatários forem fruto de eleições não-democráticas.
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