O curso da história altera o significado das palavras.
Veja, por exemplo, a palavra ‘ocidental’, que tinha significado geográfico, referindo-se ao Hemisfério Oeste (ou Hemisfério Ocidental) das terras situadas a oeste do Meridiano de Greenwich – e, recentemente, adotou um viés geopolítico, através do qual, pouco importando a localização física, passou a se referir às terras subordinadas (ou simpáticas) à liderança dos Estados Unidos. Por esta nova abordagem, por exemplo, embora esteja geograficamente situado no Hemisfério Leste, o Japão é citado ao lado dos ‘países ocidentais’ e, pelas mesmas razões, apesar de situar-se no Hemisfério Oeste, Cuba não consta da lista dos ‘países ocidentais’.
Este tipo de subversão conceitual – que, por si só, afeta a compreensão das palavras, sendo responsável por graves erros de interpretação histórica – ganha gravidade quando é combinado com outros [erros] da mesma natureza. Veja o caso da tal ‘Democracia ocidental’ – um termo que, etimologicamente, deveria se referir a governos de países situados no Hemisfério Oeste exercidos segundo a fórmula ‘do povo, pelo povo, para o povo’ – que passou a designar os países subordinados (ou simpáticos) a liderança dos Estados Unidos (o qual, vale destacar, deixou de funcionar como uma Democracia há tempos). Por este entendimento, países como o Reino Unido, uma monarquia presente em todos os hemisférios, é considerado uma ‘democracia ocidental’.
O mesmo tipo de fenômeno ocorre com o termo ‘mídia ocidental’, que se refere aos órgãos de comunicação obedientes a orientação emanada da Casa Branca e do aparato que lhe dá sustentação. Aliás, nos dias correntes, a melhor forma de identificação das agências e órgãos de comunicação é verificar o tratamento que dá à guerra decorrente das agressões dos Estados Unidos e Israel ao Irã: acintosamente, a mídia ocidental se presta para funcionar como assessoria de imprensa do governo dos Estados Unidos, sendo decisiva para criar um cenário artificial simpático aos Estados Unidos no qual, ao tempo que valoriza as posições estadunidenses e israelenses, deprecia e minimiza a reação e os avanços iranianos.
Na realidade, a manipulação das palavras funciona como instrumento de manipulação das pessoas, inserindo-as numa estrutura maniqueísta que as toma (toma as palavras) como elemento certificador de ‘honorabilidade política’, colocando do ‘lado certo’ quem pertence a uma ‘democracia ocidental’ e reproduz aquilo que é dito pela ‘mídia ocidental’. Aqueles que não seguem esta modulação corre o risco de ser enquadrado no submundo reservado aos narcotraficantes, comunistas, terroristas, indocumentados, ilegais e outras categorias igualmente depreciativas e perigosas.
Diante da manipulação criminosa das palavras, pouco importa a verdade, o bom, o certo e legal, pois o que, no fundo, a versão que vai prevalecer é aquela que interessa àqueles que a certificam (certificam as palavras). Não será surpresa se, nos próximos meses, a mídia ocidental passar a hostilizar o presidente espanhol Pedro Sánchez, como fez com o presidente venezuelano Nicolas Maduro, apenas porque ele negou o uso das bases da Espanha como plataforma de ataque ao Irã para os aviões estadunidenses.
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