Existem mortes que, de tão convenientes, logo evocam a condição de ‘queima de arquivo’ – termo usado especialmente nos meios policiais e jornalísticos para designar a prática de destruir evidências ou eliminar testemunhas.
Veja, por exemplo, as mortes de Daiane Dias – ex-companheira de Francisco Wanderley Luiz, o Tiu França (terrorista que morreu na explosão de uma bomba diante do prédio do Supremo Tribunal Federal), que, segundo a versão oficial, faleceu na madrugada da 3ª feira, dia 03 de dezembro de 2024, em consequência de queimaduras sofridas ao atear fogo na antiga casa em que moravam, em Lages (SC) – e de Jeffrey Epstein – cafetão de bilionários e de poderosos políticos, cujo corpo foi encontrado no sábado, dia 10 de agosto de 2019, na cela em que cumpria pena numa prisão federal em Manhattan, em Nova York.
Pois é.
Ontem, na sequência da nova prisão do mega trambiqueiro Daniel Vorcaro, mentor e principal beneficiário da chamado Caso Master (que, no dizer do ministro Fernando Haddad, é o maior escândalo da história financeira do País), aconteceu uma morte estranha e conveniente, que prontamente levanta as suspeitas de queima de arquivo.
De fato, no curso na terceira fase da Operação Compliance Zero – centrada na investigação de uma estrutura paralela denominada “A Turma”, usada para monitoramento ilegal, obtenção de informações sigilosas e práticas de coação – que cumpriu quatro mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão, junto com Vorcaro, a Polícia Federal prendeu Fabiano Campos Zettel, Marilson Roseno da Silva e um certo Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão – um superespião que, mediante a verba mensal de R$ 1 milhão, se responsabilizava pela obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e ‘neutralização’ de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo (a Operação também fisgou o ex-diretor de fiscalização do Banco Central Paulo Sérgio Neves de Souza, Belline Santana, Leonardo Augusto Furtado Palhares e Ana Claúdia Queiroz de Paiva).
Pois bem.
Horas depois da prisão, antes de qualquer interrogatório ou chance de celebração de algum acordo de delação premiada, o superespião Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, também conhecido pelo sugestivo codinome de ‘Sicário’, responsável por proezas como a invasão de sistemas considerados inexpugnáveis da PF, MPF, FBI e Interpol, simplesmente morreu em decorrência da tentativa de ‘suicídio’ na carceragem da Superintendência da Polícia Federal em Minas Gerais.
Considerando a função que exercia na estrutura montada por Daniel Vocaro, o superespião exercida por Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão era um natural depositário de informações devastadoras sobre o submundo no qual prosperou o Banco Master e seus tentáculos, sendo lícita qualquer ilação e suspeita de que sua estranha e conveniente morte se enquadre no nebuloso terreno das queimas de arquivo.
Infelizmente, há o risco que, tal como aconteceu com a morte de Daiane Dias, o ‘enforcamento’ do sicário de Daniel Vorcaro seja tratado como coisa irrelevante.
Se quiser manter a respeitabilidade já conquistada neste caso, com a consciência de que a versão oficial apresentada pela Polícia Federal é inverossímil, o ministro André Mendonça deve determinar ao delegado-geral Andrei Rodrigues que agentes isentos façam a investigação de como ocorreu o ‘suicídio’ do sicário numa cela da superintendência com o uso de uma camisa.
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