Está tudo dominado.
De uns tempos para cá, está ficando cada vez mais claro que, além do bolsonarismo mais chulo e das piores ratazanas do empresariado da fé em funcionamento no mundo evangélico, a banda direita da política brasileira acolhe, dando estufa, berço e proteção, figurões ligados ao crime organizado, que, diga-se de passagem, costumam militar no baixo clero e evitar holofotes e exposições. Sempre alinhada à extrema-direita, a atuação parlamentar desta turma é caracterizada pelo descaso às coisas que interessam ao crescimento econômico, à soberania nacional e ao bem-estar social, agindo de forma aberta em favor dos seus próprios interesses, como se não tivesse qualquer compromisso com o País e com o Povo brasileiro.
Aliás, a julgar pelo seu comportamento, um analista político poderia concluir que aquela patota encara a vida pública como um ambiente no qual há liberdade para engordar, roubar e se locupletar.
De qualquer forma, sabendo-se acompanhados por olhares críticos, estes espertalhões desenvolveram formas de escapar da fiscalização – para escapar da reprimenda do público, usam e abusam das fakenews, recorrendo à mentira como instrumento regular de trabalho e tornando-a legal sob o manto da ‘liberdade de expressão’; para escapar do olhar dos órgãos de fiscalização e da Justiça, inventaram diversos mecanismos de ‘imunidade parlamentar’ para alcançar a sonhada impunidade.
Dando mais um passo largo neste processo, demonstrando pleno e total alinhamento com o desejo de impunidade pretendido pelos criminosos que atuam na política, nos últimos dias, os deputados da oposição ao governo Lula tentaram aprovar a chamada PEC da Impunidade – um dispositivo que, alterando a Constituição, instaura o oba-oba parlamentar, reduzindo os poderes do Supremo Tribunal Federal (STF) em investigações contra parlamentares, tornando impossível a prisão em flagrante de integrantes do Congresso Nacional por mais graves e cabeludos que sejam os seus crimes.
Alertada para a possibilidade da conversão do Congresso Nacional numa casa da impunidade e vendo o assanhamento dos grupos criminosos para formalizarem candidaturas às eleições do próximo ano, a sociedade reagiu e, pelo menos momentaneamente, o deputado-presidente Hugo Motta recuou e retirou a PEC da Impunidade da pauta dos trabalhos da Câmara dos Deputados.
Fez bem, pois, em caso contrário, os termos ‘deputado’ ou ‘senador’ seriam reservados para galardoar os altos escalões do crime organizado, o qual, como se sabe, está progressivamente mais entranhado nas estruturas sociais da Nação.
Esta situação ficou mais clara ontem, com aquilo referido pelo governo federal como ‘a maior operação contra o crime organizado da história do país’ – mais de 1.400 agentes públicos foram às ruas para cumprir 350 mandados de busca e apreensão contra figurões do setor de combustíveis e do mercado financeiro encastelado na Avenida Faria Lima para tentar desbaratar um megaesquema criminoso articulado pelo chamado Primeiro Comando da Capital (PCC) com a movimentação de pelo menos R$ 30 bilhões. A operação revelou a promiscuidade do crime com o mercado financeiro, apurando detalhes de um esquema que envolvia, não só o desvio de metanol e a adulteração de combustíveis, mas, também, a lavagem de dinheiro em fraudes fiscais com a participação de bancos, fintechs e fundos de investimentos.
Além de comprovar a relação promíscua do crime organizado com o mercado financeiros (há quem afirme que tratam-se de duas faces de uma mesma moeda), este episódio explica a ansiedade como alguns seguimentos do Congresso Nacional lutam pela aprovação da PEC da impunidade.
Está tudo dominado.
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