O Banco Central do Brasil é um poço de mistérios. Ninguém sequer sabe com exatidão o número de andares subterrâneos encaixados na sua magnífica sede em Brasília.
Com efeito, episódios como a sequência ascendente da taxa Selic, os inexplicáveis encontros realizados em tardes de feriados (como aquele famoso ocorrido no Dia do Trabalhador de 2025 entre o presidente Gabriel Galípolo e Joesley Batista, então interessado em adquirir um pedaço do Banco Master, uma banca bichada pertencente ao não menos enlameado Daniel Vorcaro) e, mais recentemente, o estranhíssimo acordo de leniência firmado pelo Banco Central com o ex-presidente Roberto Campos Neto [episódios que] dão mais reconhecimento a William Shakespeare, para quem “Há mais coisas entre o céu e a terra do que pode imaginar nossa vã filosofia”.
Se a taxa Selic que faz o Tesouro Nacional transferir R$ 1 trilhão por ano aos banqueiros e o carinho como Gabriel Galipolo trata os interesses de Daniel Vorcaro são esquisitos, o acordo de leniência com Roberto Campos Neto estoura a boca do balão.
Com efeito, o acordo firmado sem divulgação, publicidade ou sequer uma nota na imprensa por Gabriel Galipolo em 26 de junho de 2025 com Roberto Campos Neto, perdoando-o de todas acusações de participação em esquemas de lavagem de dinheiro do PCC mediante o pagamento de R$ 300 mil, é muito suspeito e tem história longa e rumorosa.
A grande realidade é que, conforme veio à tona nos famosos e pouco conhecidos ‘Panamá Pappers’, o Chicago’s boy Roberto Campos Neto, herdeiro e discípulo do velho Bob Fields, é um trambiqueiro de mão cheia.
É uma história antiga e pouca gente lembra.
Em setembro de 2022 – a partir de um Relatório de Inteligência Financeira sobre a movimentação suspeita de criptoativos, com a remessas de valores superiores a R$ 18 bilhões para endereços bancários nos Estados Unidos, Hong Kong e Singapura pelos bancos Master, Genial, Travelex, Câmbio, Haitong e Santander e mais 68 empresas de fachada, incluindo algumas ligadas a gente do PCC, um conluio denunciado por outros quatro bancos e uma corretora de valores, que recusaram participar do golpe – com apoio da Receita Federal, a Polícia Federal deflagrou a chamada ‘Operação Colossus’, cujo objetivo era apurar suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e associação criminosa, relacionadas com negociações com criptomoedas no período de 2017 a 2021.
Foi descoberto, então, o envolvimento até a medula do responsável pela área de câmbio o Banco Santander, um certo Roberto Campos Neto, que, pouco depois, foi alçado pelo ministro Paulo Guedes para a presidência do Banco Central do Brasil.
Na ocasião, a Polícia Federal concluiu ter havido uma ‘cegueira deliberada’ com a cumplicidade dos bancos (envolvendo Roberto Campos Neto diretamente).
O detalhe é que, em manobra claramente preocupada com as conclusões da Policia Federal, pouco depois, por iniciativa do governo Bolsonaro, o Congresso promulgou a Lei 14.286 (que ampliou os poderes do Banco Central regular o mercado de câmbio, incluindo a autorização para instituições autorizadas a remeter recursos para operações no Brasil e no exterior) e no dia 31 de dezembro de 2022, último dia do governo Bolsonaro, o Banco Central divulgou a Resolução 277, transferindo a responsabilidade daquelas operações apenas do cliente, livrando a responsabilidade dos bancos envolvidos na tramoia, incluindo o Santander (e seu antigo diretor Roberto Campos Neto) de qualquer investigação criminal.
É muita cara de pau.
Daí em diante, prevaleceu o oba-oba nas operações, que passaram a ser regidas por cláusulas vagas ou omissas, podendo, assim, mascarar operações suspeitas.
Agora, em 02 de junho de 2025, esperando apagar os últimos vestígios do mega trambique, estabelecendo o fim do processo sancionador, sem confissão de culpa ou reconhecimento de ilicitude (conforme art. 14, parágrafo único, da Lei nº 13.506/2017) e o reconhecimento formal das falhas administrativas e compromisso de colaboração com o Banco Central, Gabriel Galipolo celebrou o acordo de leniência que, pela módica quantia de R$ 300 mil, livra Roberto Campos Neto de qualquer desdobramento civil ou criminal do caso.
A imoralidade, no entanto, talvez seja melada pelo Senador Renan Calheiros, que, estarrecido com tamanha falta de vergonha, convocou Gabriel Galípolo para explicar a motivação jurídica e os impactos institucionais do acordo firmado com Roberto Campos Neto à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE).
Para o senador Renan Calheiros, há necessidade de uma explicação convincente para o acordo, de modo a preservar a credibilidade da autoridade monetária e garantir que os processos administrativos sancionadores ocorram de maneira transparente.
Este episódio comprova a desonestidade da turma que assumiu a condução do Banco Central independente (tanto Roberto Campos Neto como Gabriel Galipolo).
Leia mais em
www.alexandresanttos.com.br
