Os grandes crimes são empreendimentos de natureza complexa, os quais, sob a liderança do ‘grande criminoso’ envolve a articulação de muitos atores – idealizadores, planejadores, financiadores, executores, observadores, admiradores -, que, diga-se de passagem, podem estar amalgamados em poucas pessoas (até, mesmo, numa única pessoa).
Às vezes, por compartilhar, intencionalmente ou não, as ideias e atividades com terceiros, o ‘grande criminoso’ os torna cúmplices.
Assim, direta ou indiretamente e com níveis diferentes de envolvimento, no âmbito dos grandes crimes há uma rede de ‘criminosos’ – um conjunto composto por pessoas de diferentes graus de culpa e de periculosidade que se conectam de alguma forma.
Não é sem razão que, no julgamento das gangues, a dosimetria das penas não é igual para todos os condenados.
A compreensão deste atributo dos grandes crimes facilita o entendimento de que, por mais tênue que possa ser, há um elo entre os parceiros e, neste sentido, eles [os criminosos] são interdependentes.
Nesta perspectiva, é lícito esperar que, quanto maior e mais grandioso for o crime, maior deverá ser a amplitude da articulação que o aplica e, por igual razão, mais poderosos devem ser os elos que compõem a rede.
Vale destacar que, da mesmo modo que fortalece e possibilita os grandes crimes, as redes criminosas podem fragiliza-la, pois no caso do rompimento de um dos elos, como ocorre na queda dos dominós, a debacle pode se abater sobre toda ela [toda a rede].
Não é a toa, portanto, que a dinâmica das gangues tanto valoriza a chamada Lei do Silêncio (Omertá) e, quando ameaçadas, recorram ao assassinato dos seus como ‘queima de arquivo’.
Isto posto, pode-se avaliar o estrago que a celebração de eventual acordo de delação premiada de um grande criminoso, como por exemplo o banqueiro Daniel Vorcaro, e a Polícia Federal poderia causar no crime organizado em atividade no Brasil. Neste caso, do pouco que a sociedade sabe do trambique aplicado pelo Banco Master, está claro o envolvimento de figuras públicas como o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto, dos governadores Ibaneis Rocha (DF) e Cláudio Castro (RJ) e do senador Ciro Nogueira. A eventual delação premiada de Daniel Vorcaro teria o efeito de um furacão nas cadeias criminosas do País.
A esta altura, convencidos da necessidade de ‘queimar’ um arquivo perigoso, muitos já devem ter colocado a cabeça dele a prêmio.
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